O plano do governo para atrair motoristas de aplicativo e taxistas com crédito barato e a barreira da análise bancária.
Estratégia – Com o programa Move Brasil Táxi e Aplicativos, o governo adota o crédito subsidiado para tentar seduzir uma categoria refratária ao petismo e reaquecer as montadoras.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva formalizou nesta semana a Medida Provisória nº 1.359, que cria o Move Brasil Táxi e Aplicativos. Trata-se de uma robusta linha de crédito de 30 bilhões de reais estruturada pelo BNDES e amparada pelo Fundo Garantidor para Investimentos (FGI-PEAC). O objetivo central é financiar a compra de automóveis zero-quilômetro para taxistas e motoristas de plataformas como Uber e 99.
Por trás do jargão técnico da “renovação de frota”, há um nítido duplo movimento: o Palácio do Planalto tenta injetar fôlego na indústria automotiva nacional e, ao mesmo tempo, ensaia uma aproximação pragmática com uma massa de trabalhadores autônomos que se tornou um dos principais bastiões do eleitorado de oposição.
A mecânica do subsídio
O desenho do programa estabelece um teto de 150.000 reais por veículo, limitando o benefício a uma unidade por CPF. Alinhada aos preceitos da política industrial do governo (Nova Indústria Brasil), a linha restringe-se a modelos considerados sustentáveis: entram carros flex, híbridos movidos a etanol e elétricos, o que exclui do pacote os modelos híbridos convencionais que queimam apenas gasolina.
As condições financeiras tentam mimetizar tempos de crédito farto. As taxas de juros previstas giram em torno de 12,6% ao ano (0,99% ao mês) para homens e 11,5% ao ano para mulheres. O prazo de quitação se estende por até 72 meses, com uma carência de seis meses antes do pagamento da primeira parcela do principal. Marcas com forte atuação no país, como Fiat, Volkswagen, Chevrolet, Hyundai e a chinesa BYD, já se posicionam para capturar essa demanda.
O gargalo do crédito
Para ter acesso ao benefício, as regras exigem que motoristas de aplicativo comprovem ao menos 12 meses de cadastro ativo e um patamar mínimo de 100 corridas no período. Para os taxistas, exige-se a regularidade de alvarás e licenças municipais. A triagem inicial será centralizada no portal oficial gov.br/movebrasil.
Contudo, o sucesso do plano esbarra na realidade do mercado financeiro. Embora a União utilize o FGI-PEAC para cobrir até 80% do risco da operação, o crivo final e o risco de inadimplência permanecem sob a responsabilidade dos bancos comerciais. Na prática, motoristas com restrições cadastrais severas — o popular “nome sujo” — dificilmente conseguirão romper a barreira da análise de crédito bancária, o que tende a limitar o alcance social da medida.
O preço do estímulo
Como era de se esperar, o pacote despertou o ceticismo de economistas e analistas de mercado. Em um momento no qual o Banco Central mantém uma postura rígida na condução da política monetária para segurar as expectativas inflacionárias, a injeção artificial de 30 bilhões de reais em crédito subsidiado pelo BNDES caminha no sentido oposto ao do aperto necessário.
Para a equipe econômica, contudo, o preço político e o afago no PIB industrial parecem compensar o risco de desancoragem fiscal. O cronograma do programa prevê que, superada a fase de cadastros, as instituições financeiras privadas e cooperativas de crédito comecem a formalizar e liberar os contratos a partir do dia 19 de junho.
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